quarta-feira, 12 de março de 2025

eduardo

 "como é que esta pele de velho se instalou nas minhas pernas", pensou, enquanto esfregava a região dos gémeos da perna direita. sentia a pela áspera e seca onde há bem pouco tempo se lembrava se sentir suavidade. nem os pelos se aguentam. agora estão quebradiços e parecem plantados por um agricultor psicótico. bastante escassos, completamente desordenados.

terça-feira, 11 de março de 2025

idalina

por duas vezes engravidou. por duas vezes sentiu um ser pequeno formar-se e desenvolver-se, alimentando-se do seu corpo. por duas vezes rejubilou quando os pode redescobrir fora de si. 

ao primeiro, levaram-no as febres quando se estava a tornar um homem. ia ela fazer trinta e seis anos. passados mais sessenta, foi um cancro que lhe levou a outra. sobreviveu-lhe. 

nesse ano, no primeiro domingo do mês de maio, quando uma das netas lhe apresentou um pequeno pacote em forma de embrulho e fez menção de a beijar, apenas conseguiu soltar "pois, és uma filha sem mãe. e eu uma mãe sem filhos. podemos fazer de conta, mas não é a mesma coisa."

nunca a neta conseguiu esquecer aquelas frases, nem o olhar duplamente perdido, entre o glaucoma e a resignação.

segunda-feira, 10 de março de 2025

tiago

"o medo que tu tinhas de morrer!", pensou, enquanto olhava o corpo caído do amigo. absorveu febrilmente todos os pormenores, como se recolhesse os elementos mais raros de uma qualquer coleção. queria revê-los mais tarde, mesmo os mais sórdidos, um a um, quando estivesse a sós consigo próprio. 

e eram tantos, os mais sórdidos. a manta puída e manchada de sangue que lhe envolvia os ombros. os pés inchados que nunca mais caberiam em nenhum sapato. as beatas e a cinza que transbordavam dos cinzeiros como se fossem manchas cinzentas de contornos esbatidos, aplicadas sobre um fundo de contornos mais definidos. os pacotes vazios de vinho barato espalhados pela casa numa distribuição aleatória que não poupava peça de mobiliário ou superfície. sobre a mesa, um castelo de louça suja, restos de alimentos e embalagens descartáveis, orgulhosamente erguido, num desesperado desafio às mais básicas lógicas de um viver minimamente regrado. uma recusa absoluta.

a um canto, um aparelho de rádio ainda ligado enchia o ar de ritmos e melodias. quis fixar a música que dele saía, mas não conseguiu. apenas se lembra de ter pensado: "foi uma morte com música! que sorte!". que sorte morrer-se com banda sonora! uma morte em silêncio nem é bem uma morte, nada se interrompe bruscamente, a não ser o bater do coração e o ruído suave do pulmão ao encher-se.

"como a vida nos pôde levar por caminhos tão divergentes!", pensou mais tarde, recordando a infância e a adolescência partilhadas. na verdade sabia bem que a vida nada tinha feito, que não tinha levado ninguém por caminho nenhum. tinham sido as escolhas de cada um que os tinha conduzido a pontos tão distantes e dificilmente conciliáveis. a responsabilidade fora apenas deles. 

não havia vida nenhuma para culpar. nada para atenuar a surda dor que começava a despontar no peito, numa zona indizível, alguns centímetros abaixo da superfície.

domingo, 9 de março de 2025

um homem

durante meses, alimentou a ideia de escrever um blogue.

textos curtos, sobre fragmentos da existência.

interior e exterior.

imagens e outras desconstruções da alma.

 

eduardo

 "como é que esta pele de velho se instalou nas minhas pernas", pensou, enquanto esfregava a região dos gémeos da perna direita. s...