segunda-feira, 10 de março de 2025

tiago

"o medo que tu tinhas de morrer!", pensou, enquanto olhava o corpo caído do amigo. absorveu febrilmente todos os pormenores, como se recolhesse os elementos mais raros de uma qualquer coleção. queria revê-los mais tarde, mesmo os mais sórdidos, um a um, quando estivesse a sós consigo próprio. 

e eram tantos, os mais sórdidos. a manta puída e manchada de sangue que lhe envolvia os ombros. os pés inchados que nunca mais caberiam em nenhum sapato. as beatas e a cinza que transbordavam dos cinzeiros como se fossem manchas cinzentas de contornos esbatidos, aplicadas sobre um fundo de contornos mais definidos. os pacotes vazios de vinho barato espalhados pela casa numa distribuição aleatória que não poupava peça de mobiliário ou superfície. sobre a mesa, um castelo de louça suja, restos de alimentos e embalagens descartáveis, orgulhosamente erguido, num desesperado desafio às mais básicas lógicas de um viver minimamente regrado. uma recusa absoluta.

a um canto, um aparelho de rádio ainda ligado enchia o ar de ritmos e melodias. quis fixar a música que dele saía, mas não conseguiu. apenas se lembra de ter pensado: "foi uma morte com música! que sorte!". que sorte morrer-se com banda sonora! uma morte em silêncio nem é bem uma morte, nada se interrompe bruscamente, a não ser o bater do coração e o ruído suave do pulmão ao encher-se.

"como a vida nos pôde levar por caminhos tão divergentes!", pensou mais tarde, recordando a infância e a adolescência partilhadas. na verdade sabia bem que a vida nada tinha feito, que não tinha levado ninguém por caminho nenhum. tinham sido as escolhas de cada um que os tinha conduzido a pontos tão distantes e dificilmente conciliáveis. a responsabilidade fora apenas deles. 

não havia vida nenhuma para culpar. nada para atenuar a surda dor que começava a despontar no peito, numa zona indizível, alguns centímetros abaixo da superfície.

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