por duas vezes engravidou. por duas vezes sentiu um ser pequeno formar-se e desenvolver-se, alimentando-se do seu corpo. por duas vezes rejubilou quando os pode redescobrir fora de si.
ao primeiro, levaram-no as febres quando se estava a tornar um homem. ia ela fazer trinta e seis anos. passados mais sessenta, foi um cancro que lhe levou a outra. sobreviveu-lhe.
nesse ano, no primeiro domingo do mês de maio, quando uma das netas lhe apresentou um pequeno pacote em forma de embrulho e fez menção de a beijar, apenas conseguiu soltar "pois, és uma filha sem mãe. e eu uma mãe sem filhos. podemos fazer de conta, mas não é a mesma coisa."
nunca a neta conseguiu esquecer aquelas frases, nem o olhar duplamente perdido, entre o glaucoma e a resignação.
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